segunda-feira, 5 de março de 2012

Puto, em Pessoa

Álvaro de Campos

Lisbon Revisited
(l923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sobre as edições humanas, filmes e arremedos de amor


Como muitos dos posts desse blog, esse eu escrevi há um tempo (alguns meses) e deixei guardado pra postar depois. Eu os deixo guardado como plano B quando surgirem as eventuais crises de criatividade. Acho que não é o caso, mas eu tenho que terminar uma missão literária antes de postar outra coisa!

Sem mais, ei-lo:

Ausência e Compreensão ou O Amor é Filme

Ame-o ou deixe-o”!

E quando amar é deixar? E quando se ama e deixa? A ausência, fruto do que não mais é nos ajuda um pouco com essas questões.

Tem aquele tipo de filme que ao terminar nos deixa parados, olhando para a tela, sem saber direito o que aconteceu ali. 5, 10, 15 segundos depois, a gente começa a perceber e a juntar os fatos, as cenas, os diálogos, e aí rola aquele aceno positivo com a cabeça que diz: “Puta que pariu! Esse é o filme”, ou aquele aceno negativo que diz: “Puta que pariu! Quero minhas duas horas de volta”. Assim, bem assim, acontece em nossas vidas. São basicamente essas as nossas reações depois que as coisas acabam, sejam elas quais forem, terminem elas como terminarem. O problema é que aqueles segundos até a compreensão do filme depois do seu final, quando transformados em tempo de compreensão do que aconteceu conosco em relação as nossas experiências “acabadas”, podem ser contados como dias, meses, anos... vidas.

Muitas vidas. As vezes nem parece a mesma vida. Vidas passadas, sei lá. Quem nunca pensou: “Se eu vivesse “tal época” da minha vida com “a cabeça” que eu tenho hoje eu faria um monte de coisa diferentemente”. Mas é essa a grande questão: Você só sabe o que faria porque você não vive mais aquilo. Você já viveu. A memória que você tem daquele tempo só revela a ausência daquele tempo. Você, hoje, é uma outra edição de si mesmo, relembrando Machado de Assis. Assim, de certa forma, tem que se haver a perda ou a ausência, para que haja uma compreensão do que aconteceu. E o tempo, brother, é severo e sempre nos deixará com essa impressão de que poderíamos ter feito diferentemente, de que poderíamos ter feito mais e melhor. Desse jeito, o melhor que podemos fazer, é nos apegar ao “porto seguro da memória”, aos resquícios do que vivemos, para que possamos retê-los e, ao mesmo tempo, deixá-los ir.

Deixar ir para compreender depois: isso não faz o menor sentido para os amantes. E nem poderia fazer. Quem ama não quer saber disso, quem ama só quer saber do... não quer saber de nada. E isso é bom. Sem mas*, só bom e simples. Digo até, prático. Mesmo assim, se morrer o que é sentido pelos amantes, “posto que é chama”, depois da contemplação da tela no momento em que os créditos sobem e no final de um tempo particular e de algumas lágrimas praticadas, brotará no espírito daqueles que a desejarem, a compreensão do que aconteceu. A calma compreensão do que aconteceu. E aí o que acontece? Deixo ir, mesmo amando. Deixo ir, pois agora compreendo ou deixei ir e agora compreendo (a segunda afirmativa deve se aproximar mais da verdade).

Eu não ia tornar o “amor romance” no cerne desse texto, mas não conseguir fazer diferente, por que

O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
Eu sei por que eu sei muito bem como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica

Um belo dia a gente acorda e hum...
Um filme passou por a gente e parece que já se anunciou o episódio dois
É quando a gente sente o amor se abuletar na gente tudo acabou bem,
Agora o que vem depois

O amor é filme...

É quando as emoções viram luz, e sombras e sons, movimentos
E o mundo todo vira nós dois,
Dois corações bandidos
Enquanto uma canção de amor persegue o sentimento
O Zoom in dá ré e sobem os créditos
O amor é filme e Deus espectador!

"- A gente devia ser como o pessoal do filme, poder cortar as partes chatas da vida, poder evitar os acontecimentos!
Num é?!?!

...

Num é???
Caso o filme acabe, deixe, entenda, levante e vai jogar o saco da pipoca no lixo... se puder.

*É agora que confesso minha mentira: existe um “mas”, a saber, MAS quem ama? Quem sabe amar? Esse é o obstáculo posto entre o “amor” e a compreensão, que jamais seria realmente obstáculo para o amor (sem aspas), já que este dispensa a compreensão do que aconteceu, pois ele permanece, pois ele prevalece e nunca poderá ter acontecido, pois sempre acontece. Ainda assim, não restam dúvidas de que os humanos não são capazes de tal amor sem aspas. Somos capazes sim de “amores”, ou amor + mas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Into the wild



"Os únicos presentes do mar são golpes duros ... e às vezes a chance de sentir-se forte. Eu não sei muito sobre o mar, mas sei que as coisas são assim por aqui. E também sei como é importante na vida não necessariamente ser forte, mas sentir-se forte, confrontar-se ao menos uma vez, achar-se ao menos uma vez na mais antiga condição humana. Enfrentar a pedra surda e cega a sós, sem ajuda além das próprias mãos e da cabeça."

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Sobre as casas que nos habitam

Eu tenho uma casa, bem na ladeira dos já fatigados
Uma casa bem grande e até que bonita, se vista de fora
Uma casa tão velha que é da idade das dores dos homens
Quem já morou nela se fez tão ingrato, mudou-se pra longe

Essa casa é feita de muros cerrados, tão altos, tão altos
Que é pra manter, distante, distante, qualquer um que seja
O portão que tem nela, deixei eu trancado já faz muito tempo
E a chave deste, trago eu oculta à minha maneira

Nessa casa que é minha, existe um jardim que é minha infância
Onde eu brincava e era feliz ingênuo de tudo
Passando por ele encontra-se a porta que dá para sala
Um vão deprimente sem qualquer mobília, sem nada, sem nada

Num canto, recôndito, o meu frio quarto que é onde me deito
Travo as mais vis batalhas contra o inimigo, o meu travesseiro
Por vezes acordo, não sei se é noite não sei se é dia
Por vezes me deito a me questionar o porquê da agonia

Há ainda um banheiro onde me lavo dos muitos pecados
Queria somá-los, mas até para isso me fiz fracassado
Dei voltas na casa e não encontrei sequer uma janela
Ninguém me perscruta e se há pecados arrasto-os nas sombras

Minha casa é isso, é tudo que tenho e tudo que posso
Não sei se sou casa ou se sempre vontade, sempre despedida
O retrato da casa é quase bonito, é quase canção
O relato da casa é o retrato vazio do meu coração

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tarantarantado

Sou Uma Criança, Não Entendo Nada
(Arnaldo Antunes)


Antigamente quando eu me excedia
Ou fazia alguma coisa errada
Naturalmente minha mãe dizia:
"Ele é uma criança, não entende nada"...

Por dentro eu ria
Satisfeito e mudo
Eu era um homem
E entendia tudo...

Hoje só com meus problemas
Rezo muito, mas eu não me iludo
Sempre me dizem quando fico sério:
"Ele é um homem e entende tudo"...

Por dentro com
A alma tarantada
Sou uma criança
Não entendo nada...


Para o vídeo, clique aqui

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

El secreto de sus ojos *


Pude bem cedo conhecer melhor aquela flor, Sempre houvera, no planeta do pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manhã na relva, e já à tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros. Podia ser uma nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou então a preparar uma flor. O principezinho, que assistia à instalação de um enorme botão, bem sentiu que sairia dali uma aparição miraculosa; mas a flor não acabava mais de preparar-se, de preparar sua beleza, no seu verde quarto.

Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma suas pétalas. Não queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua beleza é que ela queria aparecer. Ah! sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara dias e dias. E eis que uma bela manhã, justamente à hora do sol nascer, havia-se, afinal, mostrado.

E ela, que se preparara com tanto esmero, disse, bocejando:
- Ah! eu acabo de despertar. . . Desculpa... Estou ainda toda despenteada...
O principezinho, então, não pôde conter o seu espanto:
- Como és bonita!
- Não é? respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo em que o sol...
O principezinho percebeu logo que a flor não era modesta. Mas era tão comovente!
- Creio que é hora do almoço, acrescentou ela. Tu poderias cuidar de mim...
E o principezinho, embaraçado, fora buscar um regador com água fresca, e servira à flor.

Assim, ela o afligira logo com sua mórbida vaidade. Um dia, por exemplo, falando dos seus quatro espinhos, dissera ao pequeno príncipe:
- É que eles podem vir, os tigres, com suas garras!
- Não há tigres no meu planeta, objetara o principezinho. E depois, os tigres não comem erva.
Não sou uma erva, respondera a flor suavemente.
Perdoa-me...
Não tenho receio dos tigres, mas tenho horror das correntes de ar. Não terias acaso um pára-vento?
"Horror das correntes de ar... Não é muito bom para uma planta, notara o principezinho. É bem complicada essa flor...” À noite me colocarás sob a redoma. Faz muito frio no teu planeta. Está mal instalado.
De onde eu venho...
Mas interrompeu-se de súbito.
Viera em forma de semente. Não pudera conhecer nada dos outros mundos. Humilhada por se ter deixado apanhar numa mentira tão tola, tossiu duas ou três vezes, para pôr a culpa no príncipe:
- E o pára vento?
- Ia buscá-lo. Mas tu me falavas...
Então ela redobrara a tosse para infligir-lhe remorso.

Assim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela.
Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.
"Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido”.

Confessou-me ainda:
"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar."
(O Pequeno Príncipe, 1943)

E assim, depois de muito tempo nós desvendamos os segredos dos olhos das nossas amadas. Depois de tudo, entendemos que os olhos de uma flor nunca se calam. Suas palavras, comparadas a estes, nunca farão tanto sentido ou terão tantos significados. “Nunca se deve escutar as flores”.

* Título do excelente filme hispano-argentino, lançado em 2009, dirigido por Juan José Campanella. Para site oficial, clique aqui.

domingo, 13 de novembro de 2011

Cemitério para Insetos

Quando eu era criança, eu me envolvia em alguns projetos. Projetos meus, para serem realizados por mim mesmo. A maioria versava sobre desenhos e desenhar, minha eterna paixão adormecida, para a qual eu não dei atenção o suficiente e que acabou por se divorciar de mim (talvez eu escreva para ela qualquer dia desses para pedir reconciliação). A maioria dos projetos eram esses desenhos, que eram estorinhas de ação, comédia... aos quais eu nunca terminava. Antes disso, antes desse tipo de projeto artístico, meus projetos infantis tinham a ver com animais. De um deles, em especial, eu me lembro bem.

Era uma tarde. Chovia. A estação do ano, não me lembro. Ainda não me atentava para as épocas e nem para a poesia que há em escrever delimitando o tempo através delas. Se soubesse disso, aprisionaria essa memória futura a uma estação, a alguma sensação de frio ou calor, o que te ajudaria a se sentir como eu me sentia e a se transportar para onde eu estava. Mas eu tinha algo melhor que a poesia. Eu tinha a infância e você teve sua infância, o que sem dúvida te ajudará a se sentir como eu me sentia e irá te transportar para onde eu estava.

Era uma tarde. Chovia. Eu estava em casa com aquele tédio inerente às crianças. A chuva passou. Fui para o quintal. O quintal da minha casa era diferente do que é hoje. Ele tinha menos concreto e ajudado por todo o “naipe” bucólico do meu bairro, após a chuva, se tornava não um abrigo, mas uma passarela para inúmeros pequenos seres vivos que saiam para vadiar: eram os insetos.

Eu os observava encantado, quando vi um besouro morto. Aí foi quando tive minha idéia brilhante: “vou enterrá-lo. Vou enterrar todos os insetos mortos. Vou construir um cemitério de insetos”. E assim o fiz. Cavei uma pequena cova na terra úmida e coloquei o pequenino defunto. Coloquei também uma pedrinha, como se fosse a lápide, o epitáfio, sei lá. Cerquei um pequeno perímetro que seria a área do cemitério, compactei com os dedos a cova do defuntinho e esperei por mais óbitos. Entrei em casa, e esperei. Impaciente, saí novamente. Revirei o quintal inteiro procurando cadáveres. Nada. Eu fiquei irritado. Ninguém mais morria, só porque eu tinha feito um cemitério. Eu me sentia como O Bem Amado e como Odorico Paraguaçu, eu tive que tomar minhas providências. Ora, se ninguém morria por vontade própria eu tinha que forçá-los: foi aí que começou a matança. Naquela mesma tarde meu cemitério de insetos estava sem mais vagas. A mini vida natural do meu quintal nunca se esquecerá daquele terrível dia.

...

Hoje, faz muito calor na primavera baiana. Uma borboleta me fez lembrar daquele dia fatídico, não porque ela estava morta ou porque eu a matei, mas porque eu apenas a olhei.

Saí na varanda e essa borboleta se aproximou e voou ao meu redor e voou mais e continuou voando. E eu apenas olhei. Nem sequer estendi a mão para tentar tocá-la. Somente olhar para aquele pedacinho de papel colorido voando como se estivesse a sorte do vento me satisfez. Quando criança isso não me bastaria. Provavelmente eu ia tentar tocá-la, capturá-la, matá-la. Olhar não seria suficiente. Eu iria querer a borboleta sempre, sem saber que o “sempre” iria fazer exatamente eu não querê-la mais. A falta da borboleta me faz querer olhar para a borboleta. Se eu a tocasse, poderia atrapalhar seu vôo ou danificar suas frágeis asas. Se eu a matasse ela não voaria mais. Ela estaria junto com os outros na minha macabra brincadeira de criança, enterrada no meu quintal. Esses cadáveres não brotarão e nem darão flores como os de T.S. Eliot. Esses insetos mortos no quintal só servem para comprovar a natureza ingenuamente perversa das crianças e para me ajudar em uma metáfora simples sobre o amor e sobre a admiração: Liberdade para a coisa amada, ao seu tempo ela voltará e você poderá admirá-la de novo. Ao seu tempo ela voltará e voará a seu redor sem te pedir coisa alguma. Você entenderá isso e dirá para ela: ”tudo certo amor, eu não vou atrapalhar seu vôo".