quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Devaneios sobre aspas no amor


Texto escrito em uma agenda velha que encontrei na última casa abandonada que eu inventei:

Tudo que eu preciso é acertar seu ritmo, para não ter que me esforçar para te alcançar nem ter que parar pra esperar você.

Tudo o que eu preciso é descobrir porque o sorriso dela é em câmera lenta, assim como o seu choro, assim como seu tudo.

Eu só queria ver um único romance de trás pra frente, um desses que começam com lágrimas e corações partidos e terminam na conquista, queria ver isso pelo menos uma vez na vida, em um sonho que eu sonhei para mim mesmo.

Tudo que eu queria era pensar palavras de amor tão bonitas que as pessoas quisessem tatuá-las no braço, nas costas... as meninas, nos pés.

Eu queria agora era lamber seu cérebro e sentir o gosto de seus pensamentos. Não para sabê-los, só pra degustar um pouco da sua essência.

Eu queria também, encher um balão de lágrimas e esperar você passa em minha porta. Aí eu o jogaria bem na sua cara... mas isso já seria maldade. Eu queria saber esperar.

Eu queria uma linha e uma agulha tão poderosa que eu pudesse costurar minhas ideias umas as outras e me fizesse parar de pensar em libélula.

Eu queria acertar de vez em quando.

Eu queria não ter versos de músicas de amor dos outros ou versos dos outros sobre o amor em minha cabeça. Quero os meus próprios. Só os meus.

Tudo que queria mesmo é cheirar um amor novo, já que eu sei que amores têm cheiros. Amor de verdade cheira a sono! Amor mais ou menos cheira a perfume.

Flores colhidas têm cheiro estranho. Como dar flores pra alguém poderia ser romântico? Como cortar as partes mais belas de um vegetal e entregá-las pra murcharem e morrer na casa de alguém pode ser um sinal de apreço?

Se eu tivesse um jardim...

Eu tenho um espaço vazio no meu coração onde as aves do céu fazem ninho e as plantas silvestres fincam suas raízes. Eu tenho deslembranças em minha mente por conta da última ressaca do mar.

Eu tenho um espaço vazio no coração. Eu tenho deslembranças em minha mente. Ainda assim, existe algo em mim que nem eu e nem você conseguimos deixar de desejar.

Eu tenho tudo isso. Isso tudo me tem. Eu queria isso tudo e isso tudo me queria.

Se eu tivesse um jardim...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sacrosociossanto

Nessa semana, vendo uma entrevista do Pondé no Roda Viva me atentei para o tema. O seu discurso não se debruçou a esse respeito, mas ele citou isso em um emaranhado de idéias que vociferava ao final do programa. O tema é “o papel social do cristianismo”.

Enquanto citava alguma coisa sobre igreja (coisa que eu não me lembro), Luiz Felipe Pondé falou sobre esse papel questionador da igreja. Falou sobre os profetas que nas suas palavras faziam uma crítica social (ao povo) e também uma crítica ao governo (que seria o nosso Estado). Essa sua fala me fez pensar sobre o tema...

Falar do velho testamento é falar da “Bíblia que Jesus lia”. Portanto, mesmo que eu fale de cristianismo posso me reportar a alguns dos profetas para elucidar esse histórico de confrontação entre o que é proposto pela religião e a ordem social vigente. Mesmo com essa justificativa, o exemplo dos profetas já foi citado, então vamos nos ater ao cristianismo do Cristo.

“Dai a Cesar o que é de Cesar e Deus o que é de Deus”: talvez seja essa a maior contraproposta a um Estado laico presente no novo testamento. Não é a instalação de um Estado laico a proposta desse texto. A função social da igreja não é a que estamos acostumados a ouvir em intervalos de tempo regulares, de quatro em quatro anos pra ser mais exato. A função social da igreja não é a de indicar alguns de seus membros a tomarem partido na disputa eleitoral e dizer que “povo de Deus vota em homens de Deus”. A função social da igreja extrapola o âmbito da política local e pontual e envolve uma questão ideológica que talvez seja uma premissa da fé cristã.

“E não vos conformeis com este mundo”. Logo esse “mundo” que causa tanta confusão na cabeça das pessoas. Música “do mundo”. “Quando eu era “do mundo””... Mas não é mundo mesmo? É mundo sim. Mas é a maneira de mundo, é o modo de vida. Não é a distinção entre o “meu mundo”, que professo a fé cristã e o mundo deles, que não professam. É a inconformidade em relação ao (E)estado das coisas. E nesse sentido, a crítica social que o cristianismo suscita é muito contundente. “Não ameis o mundo”. O modo de vida está distorcido, invente um novo pra você. Um que seja mais saudável. Um que seja menos afoito por dinheiro, carreira e alguns outros bichos.

Em um segundo momento, a função social da igreja sai do discurso e vai para a prática: “A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo” (Tg 1:27). Isso é uma questão de estatuto da criança e de previdência social. É claro que na época a sociedade não estava organizada de modo a atender a necessidade dessa camada da sociedade: os desamparados. Assim, o cuidado com o próximo é um temática recorrente no N.T., onde assuntos como as esmolas e as visitas são abordados como pré-requisitos para o exercício da “boa religião”. Bom, agora eu terei que sair visitando e dando esmolas? Isso é com você. Mas aos membros de igrejas é indispensável saber que como instituição que foi fundada pelo amor, precisa irradiar amor. Amor em obras. Amor em assistência social sim! Pagamos impostos e uma parte (ainda que menor que a necessária ou suficiente, mas mal utilizada) vai para programas assistencialistas. E o dízimo? E a oferta?

Quem gosta da democracia não pode esquecer que se esta é construída sobre uma base de desigualdade social não é democracia. Quem gosta do cristianismo deve lembrar o que Jesus disse para o jovem rico (aquele lance do camelo). Ou seja, Jesus 1 X 0 Teologia da Prosperidade. Então agora eu serei franciscano? Não é bem assim, ou é, se você assim desejar ou se quiser produzir cerveja boa. A questão é que os cristãos devem estar atentos a realidade, apesar de que o reino não é deste mundo. Manter o equilíbrio, se atentar para as questões socias, fazer o possível para a construção de uma sociedade mais humana e se possível, com um toque de divindade. Inquietação em relação à temática social: passe adiante.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Pelo nome certo *

I

“Eu tenho nome. E quem não tem”? Os que o sabem o chamam. Alguns o diminuem. Os que não o sabem me chamam de “ei”, “moço”, “esse”, “aquele”, “032****”... Aqueles que gostariam de sabê-lo, o perguntam. As coisas têm nome. As que não têm, não existem ou não foram “trazidas a existir” ainda. Se você chamar uma cadeira de ventilador ou uma pá de balde, provavelmente, não se fará entender por não ter designado o objeto pelo nome correto, ou pelo menos, pelo nome que lhe é usualmente atribuído. Contudo, “As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças”, e por isso, a educação tem importante papel nesse processo nomeador.

No começo de seu desenvolvimento intelectual a criança aprende a chamar as coisas por nomes. Aprende sobre convenções presentes na gramática e na aritmética. Aprende sobre símbolos como as letras e os números e sobre seus significados. Aprende sobre as cores e suas variações. Aprende sobre os sons das coisas. Em suma, aprende a chamar as coisas pelo nome, ou por algum nome. Assim, a criança aprende que não pode “escutar a cor dos passarinhos”, como escreve Manoel de Barros, porque o “verbo escutar não funciona para cor, mas para o som”. Assim, o mundo fica etiquetado e arquivado por afinidades e funções. Assim, a vida é etiquetada junto com o mundo e a língua é a algema que prende as coisas aos seus conceitos.

Indubitavelmente, “nomeare humanum est”. Contudo, essa coisa de atribuir nomes e de aprender nomes é apenas um passo necessário para alcançar um estágio mais elevado, mas ainda não definitivo, da caminhada que culmina na elevação do espírito, por assim dizer. É preciso depois de ter aprendido, desaprender.

II

“No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo”.

Autores como Guimarães Rosa e Manuel de Barros escrevem em seu próprio idioma. Entretanto, um olhar biográfico mais atento revelará que eles só conseguiram reinventar a língua portuguesa ao seu modo porque a conheciam (e conheciam outras línguas), profundamente. Eles “souberam muito sobre”, antes de “não querer mais saber de”. E isso é revelado no “Livro das Ignorãnças”, onde M. Barros deixa claro o descomprometimento de sua poesia com as convenções da língua. Depois de saber ele quis ignorar, se desprender dos nomes. Depois de saber sobre a gramática, ele queria fundar a “agramática”. E fundou.

Tomar o que “é”, e que só “é” porque foi nomeado e atribuir a isso um novo significado, um significado que melhor lhe agrade, e estar, dessa forma, um tanto quanto livre do “assim das coisas”. Criar. Transcender. Esse é um começo, mas o caminho não se encerra no rompimento. E nem poderia ser assim.

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. E quando tiver nome? O que é mesmo que se quer? Será que esse desejo não se encerra apenasmente no desejo? Desse modo, saindo da agramática de M. de Barros e adentrando em um território de sensações, virtudes, sentimentos e afins, o “não nomear” se torna mais complicado. O “não nomear” se tornaria, sem o tanto necessário de equilíbrio, um regresso à adolescência da alma, por prevê uma busca somente pela busca, uma liberdade presa a inconformidade (porque se eu sou livre, sou livre para aceitar do mesmo modo que o sou para discordar) e uma crítica que só geraria mais crítica. Uma liberdade assim nos levaria a adolescência da alma e o nosso objetivo na condição de existentes humanos é elevar nossos espíritos a se expandirem o máximo possível para que finalmente possamos nos tornar crianças novamente.

III

O caminho não se encerra rompimento. E nem poderia ser assim. O que queremos é reestabelecer o elo entre as coisas. Já rompemos. O que desejamos é ligar. Não necessariamente ligar de novo (religare), mas ligar melhor.

Aprendemos quando crianças. Desaprendemos – ou aprendemos a desaprender – em um segundo momento, e agora, finalmente, iremos aprender como se fosse a primeira vez. E finalmente, iremos tomar o exemplo dos petizes: “A criança é a inocência, é o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação”, como disse Nietzsche sobre a terceira transformação do espírito em seu Also sprach Zarathustra.

Quando nascemos somos revirados. “Somos revirados. Assim nascemos. Reestabelecer a ordem é desfazer em nós a criatura”, é o que diz Simone Weil, em princípio, sobre a morte do “eu” e sobre um “tornar-se nada”. Reestabelecer a ordem que já foi quebrada pelo nascimento e pela educação que recebemos na infância. Ordem essa que buscamos erroneamente na adolescência da alma ao querer se desprender (“não nomear”) e sempre romper, sempre lutar, sempre desassossegar. Ordem que alcançamos nesse terceiro estágio da alma que chamarei de mais infância (já que o termo segunda infância se empregaria aos estágios cognitivos conceituados pela psicopedagogia).

“NÃO, NÃO MAIS BUSCAR: que seja esta, voz da madureza, a essência do seu grito”. As palavras iniciais da sétima elegia de Rilke combinam com esse sossego perene da mais infância. Sossego de não chamar “o mal de bem”. Sossego de não querer saber disso. Sossego de natureza por ter encontrado a essência das coisas, suas relações e saber o que elas são e dar a elas o nome e chamá-las pelo nome. Que coisas? Todas elas. Nós mesmos e todo o resto, sendo todo o resto o que é mais importante e nós mesmos o “todo o resto”, reconhecendo assim, o nada que somos e a grandiosidade do mundo (coisas) ao nosso redor.

Ah, a mais infância. Estágio onde a “energia atada” se torna “energia livre capaz de amoldar-se à verdadeira relação das coisas” (Weil). Estágio onde o “eu” não incomoda mais/tanto. E nem poderia, já que a criança é sempre o recomeço, já que a criança é toda recomeço. Justiça impregnada de amor universal que encontra a igualdade entre as coisas “pois nenhuma vale sem amor, pois todas valem pelo amor”, como disse Comte-Sponville revisando as palavras de Weil. Nesse “fim”, se é livre de si e livre dos conceitos do/no mundo. Nesse “fim” se pode chamar as coisas, cada uma pelo seu nome... E só assim, chamar as coisas pelo nome certo.


*Este texto consta mais como um escopo de uma discussão muito maior. Não pude (não quis, talvez) abarcar todos as nuances inerentes as idéias presentes neste, como por exemplo, as de cunho semântico e etimológico.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A fantástica fábrica de diálogos: minha casa

Minha vó: - Bella, você já pediu alguma coisa a Deus?
Bella: - Já. Mas Ele num me deu de jeito nenhum...
Minha vó: - E o que foi que você pediu?
Bella: - Pedi pra aprender a nadar e pra ser mais obediente. Mas Ele num me deu de jeito nenhum...
Minha vó: - Mas você só tem 6 anos. Você ainda vai aprender a nadar.
Bella: - Mas Faniquita só tem 5 anos, 5 ANOS, e já sabe nadar...

...

Bella: - Luan, você já apareceu na televisão.
Luan: - Não.
Bella: - Meu pai já. Só que ele num robou nada não!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A César o de César, a Deus o de Deus (distinções à parte)

Trecho extraído do tratado sobre “Desobediência Civil” de Henry David Thoreau (1817 – 1862), obra publicada em 1848 que influenciou inúmeros pensadores do século XIX e XX (além de continuar suscitando reflexões significativas, é claro).
Em sua crítica ao governo e à forma de organização do Estado onde vivia, o autor sugere o enfretamento a estes utilizando as armas disponíveis ao cidadão comum, como o não pagamento dos impostos, que seria o atestado final de desaprovação à “ordem” social vigente. No fragmento abaixo, Thoreau apresenta uma das possibilidades que fariam valer o seu discurso de desobediência civil e afirmação da liberdade individual: o “desapego” ao dinheiro, por assim dizer.

“(...) Se houvesse quem vivesse inteiramente sem usar o dinheiro, o próprio Estado hesitaria em exigir que ele lhe entregasse uma quantia. O homem rico, no entanto - e não pretendo estabelecer uma comparação invejosa -, é sempre um ser vendido à instituição que o enriquece. Falando em termos absolutos, quanto mais dinheiro, menos virtude; pois o dinheiro interpõe-se entre um homem e os seus objetivos e permite que ele os compre; obter alguma coisa dessa forma não é uma grande virtude. O dinheiro acalma muitas perguntas que de outra forma ele se veria pressionado a fazer; de outro lado, a única pergunta nova que o dinheiro suscita é difícil, embora supérflua: "Como gastá-lo?”Um homem assim fica, portanto, sem base para uma moralidade. As oportunidades de viver diminuem proporcionalmente ao acúmulo daquilo que se chama de "meios". A melhor coisa a ser feita em prol da cultura do seu tempo por um homem rico é realizar os planos que tinha quando ainda era pobre. Cristo respondeu aos seguidores de Herodes de acordo com a situação deles. "Mostrem-me o dinheiro dos tributos", disse ele; e um deles tirou do bolso uma moeda. Disse então Jesus Cristo: "Se vocês usam o dinheiro com a imagem de César, dinheiro que ele colocou em circulação e ao qual ele deu valor, ou seja, se vocês são homens do Estado e estão felizes de se aproveitar das vantagens do governo de César, então paguem-no por isso quando ele o exigir. Portanto, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"; Cristo não lhes disse nada sobre como distinguir um do outro; eles não queriam saber isso”.

Texto na íntegra dísponivel em PDF: Clique aqui
Ver também, Evangelho de São Marcos 12,13-17.

Eu voltei para Maio de 1937

Vejo meus pais parados no baile de formatura da faculdade.

Vejo meu pai vagando sob o arco de granito ocre …

As telhas vermelhas luzindo feito placas de sangue atrás de sua cabeça.

Vejo minha mãe abraçando alguns livros leves, parada ao pé do pilar de tijolinhos …

Com os portões de ferro batido ainda abertos atrás dela, com suas lanças negras no ar de maio.

Eles vão se formar.

Eles vão se casar. São crianças, são tolos.

Só sabem que são inocentes, que nunca machucariam ninguém.

Quero ir até eles e dizer:

- “Parem, não façam isso.
Ela é a mulher errada, ele é o homem errado.
Vocês farão coisas que nunca imaginariam fazer.
Farão coisas ruins com seus filhos.
Vão sofrer de modos que nunca ouviram falar.
Vão querer morrer.”

Quero ir até eles sob o sol de fim de maio e dizer isto.

Mas eu não vou. Quero viver.

Pego os dois como bonecos de papel de homem e mulher e os esfrego pelo quadril feito lascas de pederneira para tirar faíscas deles.

Eu digo:

- Façam o que têm de fazer, e eu lhes direi tudo.



"I got back to 1937 May", by Sharon Olds,The Gold Cell (Knopf, 1987).

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Desfiles e misérias no final de abril*

Marcos Aurélio dos Santos Souza**

Do Palácio de Buckinghan à Abadia de Westminster, só riqueza e suntuosidade, do Campo Grande à Praça Castro Alves, só pobreza e miséria. Desfiles em mundos praticamente opostos repetem a nossa imensa realidade humana, paradoxal e triste, através de um figurino bem representativo. Lá, os chapéus, cabelos loiros ao vento, tiaras coloridas e os fabulosos bearskins da guarda real inglesa. Aqui, os cabelos crespos, guardas chuvas quebrados, que mal evitam a chuva insistente, mãos e bolsas nas cabeças para não estragar a “escova” e o “permanente”, boinas surradas e imundas da polícia militar, fingindo paciência com o trânsito caótico da Sete de Setembro e com as bolas vermelhas de palhaços, escondendo os narizes dos manifestantes.
Pela televisão e pelas ruas largas de Londres, 2 bilhões de pessoas acompanham ao casamento real britânico, como diz uma serelepe repórter da Globo; no comércio soteropolitano algumas dezenas de comerciários cansados e transeuntes se empurram em calçadas estreitas, desviando o olhar da passeata que mendiga atenção, repetindo, com indisfarçável cansaço, o jargão enfadonho do proletariado da educação. No alto, nas coberturas e nos imensos apartamentos do Campo Grande e Corredor da Vitória, a elite baiana não se importa com os bonecos gigantes e as placas em vermelho de Greve das universidades estaduais, e acompanha, em televisão de plasma, as notícias sobre a grande encenação real, o carnaval inglês, imaginando perfumes, os pradas, guccis, armanis, desfilando na passarela do mundo europeu (vontade de estar lá). O governador baiano, identificado com o primeiro mundo, na sua cobertura, versão baiana de palácio real, no alto de Ondina, desliga celular e telefone, para acompanhar “seus semelhantes” europeus - não saber de greve, vontade de ser príncipe, sentimento difuso de rei tropical, entre o pensamento de lord político á la Joaquim Nabuco e a filosofia de Maquiavel.
Lá em baixo, o mundo é diferente. O vermelho, um vermelho quase vinho, cardial, que em Buckinghan adorna os corpos do soldado e do príncipe William, acúmulo de sangue coagulado das chacinas bretãs, pinta a Avenida Sete na manifestação dos professores. Nessa chuva que cai hoje e derrete os morros, jogando barro em cima das pessoas das Cajazeiras e dos morros na capital baiana, o vermelho mais importante para o governador é o vermelho da cruz, que adorna a bandeira do Reino Unido.
O governador prefere viver nos sonhos do palácio de Ondina, na pompa inglesa, que parece antiga e tradicional, mas, como bem lembra os historiadores Hobsbawn e Ranger, foi forjada recentemente como símbolo de poder, inquestionável e cruel. Ele prefere viver na sua própria invenção de estado, cortando salários, impedindo as Universidades crescerem e os professores se aperfeiçoarem, dedicando seu tempo integral por um salário de miséria. Prefere viver no castelo de Caras da elite baiana, ideologicamente branca de olhos azuis, como a elite britânica.
Chove e inunda em todos nós uma sensação de que o mundo parou no século XVI. A elite política baiana imita a Europa, políticos brasileiros imitam nobres ingleses, como as mulheres brasileiras imitavam os chapéus das colonizadoras portuguesas no século XVI, os quais, distantes de qualquer moda ou senso estético, escondiam coros cabeludos empesteados de piolhos. “Wagner Nabuco Maquiavel”, nosso governador, quer ter seu desfile final, seu momento de príncipe em sua Copa de mentiras, quer mudar para Europa como Joaquim Nabuco sem sair do Brasil, a custa do sucateamento da educação. Sua única campanha é oferecer ao mundo, uma farsa, um show, uma ilusão de felicidade durante um mês de futebol, e deixar o Estado da Bahia tão pobre e miserável quanto estava antes.
Nossa campanha, a de professores e de outros funcionários públicos, por outro lado, deverá ser também contra esse circo, esse casamento real da Bahia como empresariado nacional e internacional, numa Copa, que desviará bons quinhões do erário e dos interesses do estado da Bahia. Se não for assim, aquilo que poderia ser investido em saúde e educação, na melhoria e ampliação das universidades estaduais, por exemplo, escoará obscuramente numa Copa fantasiosa “para inglês ver”.

*Disponível em: http://greveuesb.blogspot.com/2011/05/desfiles-e-miserias-no-final-de-abril.html
**Doutor em Letras pela UFBA e professor Adjunto do DCHL/UESB