segunda-feira, 2 de maio de 2011

Desfiles e misérias no final de abril*

Marcos Aurélio dos Santos Souza**

Do Palácio de Buckinghan à Abadia de Westminster, só riqueza e suntuosidade, do Campo Grande à Praça Castro Alves, só pobreza e miséria. Desfiles em mundos praticamente opostos repetem a nossa imensa realidade humana, paradoxal e triste, através de um figurino bem representativo. Lá, os chapéus, cabelos loiros ao vento, tiaras coloridas e os fabulosos bearskins da guarda real inglesa. Aqui, os cabelos crespos, guardas chuvas quebrados, que mal evitam a chuva insistente, mãos e bolsas nas cabeças para não estragar a “escova” e o “permanente”, boinas surradas e imundas da polícia militar, fingindo paciência com o trânsito caótico da Sete de Setembro e com as bolas vermelhas de palhaços, escondendo os narizes dos manifestantes.
Pela televisão e pelas ruas largas de Londres, 2 bilhões de pessoas acompanham ao casamento real britânico, como diz uma serelepe repórter da Globo; no comércio soteropolitano algumas dezenas de comerciários cansados e transeuntes se empurram em calçadas estreitas, desviando o olhar da passeata que mendiga atenção, repetindo, com indisfarçável cansaço, o jargão enfadonho do proletariado da educação. No alto, nas coberturas e nos imensos apartamentos do Campo Grande e Corredor da Vitória, a elite baiana não se importa com os bonecos gigantes e as placas em vermelho de Greve das universidades estaduais, e acompanha, em televisão de plasma, as notícias sobre a grande encenação real, o carnaval inglês, imaginando perfumes, os pradas, guccis, armanis, desfilando na passarela do mundo europeu (vontade de estar lá). O governador baiano, identificado com o primeiro mundo, na sua cobertura, versão baiana de palácio real, no alto de Ondina, desliga celular e telefone, para acompanhar “seus semelhantes” europeus - não saber de greve, vontade de ser príncipe, sentimento difuso de rei tropical, entre o pensamento de lord político á la Joaquim Nabuco e a filosofia de Maquiavel.
Lá em baixo, o mundo é diferente. O vermelho, um vermelho quase vinho, cardial, que em Buckinghan adorna os corpos do soldado e do príncipe William, acúmulo de sangue coagulado das chacinas bretãs, pinta a Avenida Sete na manifestação dos professores. Nessa chuva que cai hoje e derrete os morros, jogando barro em cima das pessoas das Cajazeiras e dos morros na capital baiana, o vermelho mais importante para o governador é o vermelho da cruz, que adorna a bandeira do Reino Unido.
O governador prefere viver nos sonhos do palácio de Ondina, na pompa inglesa, que parece antiga e tradicional, mas, como bem lembra os historiadores Hobsbawn e Ranger, foi forjada recentemente como símbolo de poder, inquestionável e cruel. Ele prefere viver na sua própria invenção de estado, cortando salários, impedindo as Universidades crescerem e os professores se aperfeiçoarem, dedicando seu tempo integral por um salário de miséria. Prefere viver no castelo de Caras da elite baiana, ideologicamente branca de olhos azuis, como a elite britânica.
Chove e inunda em todos nós uma sensação de que o mundo parou no século XVI. A elite política baiana imita a Europa, políticos brasileiros imitam nobres ingleses, como as mulheres brasileiras imitavam os chapéus das colonizadoras portuguesas no século XVI, os quais, distantes de qualquer moda ou senso estético, escondiam coros cabeludos empesteados de piolhos. “Wagner Nabuco Maquiavel”, nosso governador, quer ter seu desfile final, seu momento de príncipe em sua Copa de mentiras, quer mudar para Europa como Joaquim Nabuco sem sair do Brasil, a custa do sucateamento da educação. Sua única campanha é oferecer ao mundo, uma farsa, um show, uma ilusão de felicidade durante um mês de futebol, e deixar o Estado da Bahia tão pobre e miserável quanto estava antes.
Nossa campanha, a de professores e de outros funcionários públicos, por outro lado, deverá ser também contra esse circo, esse casamento real da Bahia como empresariado nacional e internacional, numa Copa, que desviará bons quinhões do erário e dos interesses do estado da Bahia. Se não for assim, aquilo que poderia ser investido em saúde e educação, na melhoria e ampliação das universidades estaduais, por exemplo, escoará obscuramente numa Copa fantasiosa “para inglês ver”.

*Disponível em: http://greveuesb.blogspot.com/2011/05/desfiles-e-miserias-no-final-de-abril.html
**Doutor em Letras pela UFBA e professor Adjunto do DCHL/UESB

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Reminiscência

Faxina de feriado. Alguém remexia as coisas velhas aqui em minha casa. Livros, cadernos, revistas, folhetos...tudo que for feito de papel e que se possa imaginar entulhado em um comodo de casa servindo de habitat para inúmeras espécies. Tudo foi revisado e arquivado antes de ser direcionado ou não para o lixo da segunda, é claro.
Nessa revisão, pude salvar algumas coisas antigas que eu tinha feito e/ou que me interessavam. Desenhos, livros antigos, cadernos de escola... Entre essas relíquias remanescentes do naufrágio, encontrei um pequenino texto que escrevi a quatro anos atrás. Achei válido postar ele aqui já que é uma lembrança boa que prova que eu sou "assim" tem algum tempo. Vale a ressalva de que quatro anos na vida de alguém que tem 22, é um bom tempo.
Pois bem', vamos ao texto:

02/11/2007

""Eu de mim mesmo, não sei quase nada, mas desconfio de muita coisa". E por motivo de "achar" me julgo sabedor. É que penso tanto nas coisas da vida, que minha cabeça dói, minha cabeça dói e meu ouvido sangra. De quando em vez me dá até fraqueza.
Mero devaneio... não sei. Digo, acho de despropósito enorme essas palavras. Já que - bem sei, pois me conheço - em breves dias já terão se perdido. Esquecidas. Amassadas num caderno qualquer, na melhor das hipóteses.
A quem quero enganar? Usando uma criatividade não própria, deixo eu de ser criativo. Ou será que não se reconhecer criativo já é criativismo? Mero devaneio... Êita vida besta..."


Pois bem'', eis o texto. É claro que modifiquei um pouco algumas frases que estavam com o sentido embaraçado e revi algumas concordâncias. Mas o cerne do texto continua o mesmo. Os erros de percepção e de entendimento estão lá como o de dizer "bem sei, pois me conheço". Como poderia? Mas enfim, eis o texto.

Curiosidade: Na folha de caderno na qual esse texto estava escrito havia também um desenho de um homem que possuía olhos de Homer Simpson, fumando um cigarro e com semblante triste. Havia ainda uma frase de profundidade e de caráter elucidativo muito grande. A frase dizia: " em briga de saci não tem rasteira". Vai saber...

domingo, 3 de abril de 2011

Brevíssimo tratado político

Atualmente, e como tem sido durante muito tempo, a política internacional tem sido feita a partir de pressões, dissimulações e dissuasões. A política, entendida com práxis humana, traz consigo a característica indelével de apresentar-se como jogo de dominação: “dominação do homem pelo homem”, utilizando-se a fala de Weber. Sendo assim, na prática, a política internacional é realizada de modo a atender interesses particulares. Particulares em se tratando de nações e de pessoas.
A forma de relacionamento “diplomático” que as superpotências (principalmente os Estados Unidos da América do Norte) impõem às demais (e mais frágeis) nações, é no mínimo indelicado e inadequado, para não dizer bárbaro e violento. A tentativa, por parte dos EUA, de assegurar sua hegemonia no tocante às negociações internacionais, ficou evidenciada com o vazamento de documentos confidenciais através do site wikileaks, onde funcionários do alto escalão do governo americano faziam comentários deveras inadequados sobre inúmeras lideranças mundiais, além do fato de alguns diplomatas norte-americanos terem sido instruídos pelo próprio governo a coletar dados pessoais de autoridades estrangeiras. Isso denota a “deselegância” deste governo que na tentativa de manter seu poder, faz política externa a seu modo: o “american way of life” de sempre conseguir vantagens e benefícios próprios, não importando por cima “de que” ou de quem se deva passar.
Indubitavelmente, fazer política em qualquer instância, quer dizer disputar, concorrer, “tirar vantagem” e minimizar os danos a si próprio. É claro que nem sempre se pode fazer a “política da boa vizinhança”. Contudo, já que humanos somos, politizados num bom sentido somos e instruídos razoavelmente somos, é possível (malgrado o fato de ser muito improvável), conceber uma política externa de uma maneira menos prejudicial aos envolvidos, com negociações justas e claras, sem radicalismos e com foco no bem comum. O que é estranho é que em se tratando de política, quando utilizamos palavras com “justiça”, “clareza”, “bondade”, “transparência”... nos sentimos tão ingênuos que é mais fácil defender a barbárie travestida de diplomacia do que qualquer outra forma de pensamento político e ao fazê-lo lançamos mão da ideologia hegemônica, não para dominar, mas para sermos dominados.

domingo, 13 de março de 2011

Um bom jeito de se viver: Simple Man

Homem Simples (Lynyrd Skynyrd)- Link para letra e vídeo


Mamãe me disse quando eu era jovem
Venha sentar-se ao meu lado, meu único filho,
E escute com atenção o que eu digo.
E se você fizer isto irá lhe ajudar em algum belo dia.

Leve seu tempo... não viva tão rápido,
Dificuldades virão e passarão.
Vá encontre uma mulher e encontrará amor,
E não esqueça filho, Há alguém lá em cima. (Deus)

E seja um tipo simples de homem. (Refrao)
Seja algo que você ame e entenda.
Seja um tipo simples de homem.
Você não quer fazer isso por mim filho,
Se você puder?

Esqueça seu desejo pelo ouro do homem rico
Tudo aquilo que você precisa está em sua alma,
E você pode fazer isto se você tentar.
Tudo aquilo que eu quero para você meu filho,
É estar satisfeito.

E seja um tipo simples de homem. (Refrao)
Seja algo que você ame e entenda.
Seja um tipo simples de homem.
Você não quer fazer isso por mim filho,
Se você puder?

Menino, não se preocupe... você se achará.
Siga seu coração e nada mais.
E você pode fazer isto se você tentar.
Tudo que eu quero para você meu filho,
É estar satisfeito.

E seja um tipo simples de homem. (Refrao)
Seja algo que você ame e entenda.
Seja um tipo simples de homem.
Você não quer fazer isso por mim filho,
Se você puder?

E seja um tipo simples de homem.
Seja algo que você ame e entenda.
Seja um tipo simples de homem.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Cavador de túmulos *

Essa semana assistia a uma entrevista do antropólogo Roberto DaMatta, concedida ao programa Roda Viva da TV Cultura, quando ele fez uma metáfora/analogia interessante. Dizia ele que uma biblioteca é como o cemitério, só que com uma diferença: na biblioteca agente pode abrir os túmulos sem que sejamos considerados criminosos, violadores de sepulturas etc... Acho incrível o fato de poder "entrar na mente" de gente que morreu a muito tempo, de gente que ta com o pé na cova e de gente que ta vivo ainda. Se pode, por exemplo, sei lá... cavar três túmulos de uma só vez lendo "O príncipe" comentado por Napoleão Bonaparte e pela Rainha Cristina da Suécia.

Já vi gente comparar livros a filhos, compará-los com memoriais, monumentos, personificações e até com anjos. Ja disseram que livros são como a materialização do supra-sumo da produção intelectual de alguém (o "filé da goiaba" do que alguém pensou, por assim dizer), contudo, a perspectiva de túmulos soou muito inspiradora para mim e acho que é dessa análise que vem aquela expressão "fulano revirou-se no túmulo", que é quando alguém é mal interpretado no que escreveu e não pode se defender.


*Tradução literal do termo "Grave Digger" que é o nome de uma banda alemã de Heavy Metal.

Link para a primeira parte da entrevista de Roberto DaMatta ao Roda Viva:

Click aqui

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Desfrutando eternidade

Texto escrito e dedicado a uma amiga, que além de grande, deve ser a melhor.

Bahia, dezembro de 2010

Você me perguntou o porquê de eu estar “meio assim”: taciturno, distante... Me perguntou se eu não queria fazer 22, depois de dizer que eu estava com a cara de cansado. Eu te respondi (talvez até por falta do que dizer e também por querer reafirmar minha postura “anti-aniversarialista” ridícula), que eu estava “morrendo” por fazer aniversário na próxima semana e por isso estava com “ares” e olhares reflexivos e distantes.

Esqueça o que eu disse!!!

Enquanto lia o meu mais recente livro de cabeceira (o “Pequeno tratado das grandes virtudes”), me deparei com um capítulo que me fez rever tudo o que eu tinha te declarado horas antes, naquela mesma noite – na madrugada seguinte à nossa conversa, para ser mais exato. Tal capítulo tinha como título “A gratidão”. Isso mesmo, a gratidão: de maneira coincidente a necessidade que eu tinha por ler algo a seu respeito, ao passo que de maneira paradoxal à minha postura, instantes atrás, que denotava total ingratidão, por enxergar a data natalina apenas como um simples “pressagio” para o fim de todo o homem (você até concordou: “todo mundo tá morrendo” (não que você seja ingrata, necessariamente)).

O capítulo tratava da gratidão em sua abordagem mais profunda e “definitiva”: Gratidão por estar vivendo e por ter vivido. Gratidão pela possibilidade de continuar vivendo. Sem apego ao futuro e do mesmo modo, sem nostalgia. Só o “daqui”, sem que haja muito “pra frente”. Gratidão pelo que me é externo, haja vista que “Ninguém é causa de si, nem portanto (em última instância) de sua alegria”. Grato pelo momento, por poder compartilhar isso com você. Sem que haja algum tipo de pesar ou de reflexão em demasia.

Pra terminar, um trecho do capítulo que expressa com muito mais propriedade o que eu quis te dizer nessas linhas:

“(...) o sábio regozija-se com viver, claro, mas também com ter vivido. A gratidão (charis) é essa alegria da memória, esse amor do passado – não o sofrimento do que não é mais, nem o pesar pelo que não foi, mas a lembrança alegre do que foi. É o tempo reencontrado, se quisermos (“ a gratidão do que foi”, diz Epicuro). Compreendemos que esse tempo torna a idéia da morte indiferente, como dirá Proust, pois aquilo que vivemos, a própria morte, que nos levará, não poderia tomar de nós: são bens imortais, diz Epicuro, não porque não morremos, mas porque a morte não poderia anular o que vivemos, o que fugidia e definitivamente vivemos. A morte só nos privará do futuro, que não é. A gratidão liberta-nos dele, pelo saber alegre do que foi. O reconhecimento é um conhecimento (ao passo que a esperança nada mais é que uma imaginação); é por aí que ela alcança a verdade, que é eterna, e a habita. Gratidão: desfrutar eternidade”.
André Comte-Sponville

Enfim, grato pela atenção.
Beijo.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Sobre ficção, religião e ciência oficial (texto embrionário)

“Existem mais coisas entre os céus e a Terra... do que sonha sua vã filosofia”.

Nos séculos XIX e XX, tempos de grande conflito entre o conhecimento essencialmente cientifico e as explicações de mundo produzidas pelos “leigos”, surge um conceito que longe de tentar mediar os embates estabelecidos em torno do fundamentalismo, tanto da ciência quanto da “ignorância”, serviu como “pano pra manga” para as mais bizarras especulações dos caminhos para os quais os avanços científicos e tecnológicos levariam a humanidade. Mas o que suscitaria a esperança de encontrar características de agente mediador em um conceito tão gasto e na moda, sobretudo no cinema e na TV? A esperança – ainda que seja ela “esperança” na falta de termo que melhor indique o interesse num eventual “meio termo” entre crenças e a ciência oficial – consiste no surgimento do conceito como parte da fórmula ficção + ciência.

Muito embora já houvesse registros de elementos de ficção cientifica em obras de autores do século XVIII, talvez pela produção de histórias fantásticas mais elaboradas que traziam em si maior encadeamento “pseudológico”, foi Júlio Verne (século XIX), notadamente, seu principal precursor na qualidade de gênero literário. O assustador desenvolvimento científico e tecnológico levando o homem a formas, feitos e mundos inimagináveis: esse é o enredo que observamos nessas obras, tanto na literatura clássica do gênero, quanto nos mais recentes sucessos de bilheteria nos século XX e XXI. Mas até que ponto a ciência é o real e que lhe sobra ou falta, ficção?

Por muitas vezes a ciência é temida por aqueles que esquecem que ela é fruto – talvez o mais excelente – do progresso da mente humana. Por muitas vezes a ciência é tratada como algo transcendente à espécie humana, vide o grande aumento da produção intelectual, que resulta em um processo de especialização cada vez maior e culmina na produção duma gama de conhecimentos profundos sobre determinadas áreas. Dessa forma, o homem comum se vê como dominado pela grande ciência. Se enxerga como refém de algo de que ele é tão profundamente dependente, quanto ignorante.

Desde muito tempo, quem não estava presente em dado momento ou não consegue enxergar algo, tenta explicar o que aconteceu durante sua ausência ou explicar como as coisas não vistas influenciam e transformam as vistas. Como exemplo podemos citar os estudos paleontológicos, que investigam o tempo profundo através de evidencias geológicas deixadas pelas inúmeras transformações ocorridas na estrutura terrestre, bem como os estudos geológicos e geofísicos da composição do interior da Terra, possíveis a partir da observação da propagação das ondas sísmicas e de seu comportamento em relação aos diferentes ambientes pelos quais passam, desde seu hipocentro até seu epicentro. Tais estudos só se fizeram necessários devido ao fato de que nenhum homem esteve presente a 4,5 bilhões de anos atrás, e provavelmente, jamais chegará ao núcleo da Terra ele mesmo.

São nos momentos de relativa impotência científica que surge a ficção, propondo viagens no tempo e ao centro da Terra através de máquinas mirabolantes e mundos fantásticos. Do mesmo modo, são nos momentos de “momento zero” (exato momento antes do Big Bang), que surge o princípio no qual “criou Deus o céus e a Terra”, sem que haja evidências claras nem de um nem de outro. Por fim, surge um terceiro e derradeiro momento: o momento no qual tanto o crente quanto o cientista exercem a fé. A nossa fantástica fábrica de incertezas: a hipótese.

Continua a partir dos credos e crenças (Deus sabe quando)...